Uma reflexão sobre o compromisso com o treino, a pressão pelos resultados e a forma como lidamos com as dificuldades ao longo do caminho.

A inscrição continua ativa e a vontade de mudar o corpo também. Mas os treinos vão ficando mais espaçados. Numa semana, o trabalho apertou. Na outra, o cansaço acumulou-se. Depois, há aquele exercício que continua a não sair bem. Aos poucos, treinar passa a ser mais um problema para resolver.

O curioso é que os resultados continuam na lista. Queres ganhar músculo nas pernas, desenvolver as costas, ficar mais forte. Essas expectativas mantêm-se, mesmo quando o treino vai perdendo espaço na tua vida.

O trabalho pesa. A vida fora do ginásio conta. Mas também conta a distância que se vai criando entre aquilo que esperas alcançar e aquilo que consegues manter. Essa distância merece ser reconhecida, até para não continuares a exigir de ti resultados para os quais já não estás a dar o mesmo tempo.

Pensa num triatleta que tenta conseguir uma qualificação num Ironman enquanto trabalha. Paga o equipamento, as inscrições e as deslocações. Encaixa a piscina antes do trabalho ou a corrida ao fim do dia. Pode passar várias épocas a tentar, sem qualquer garantia de conseguir.

Também há manhãs em que lhe custa começar. Treinos que correm mal. Fins de semana em que gasta dinheiro, compete e volta para casa desiludido. Para continuar, tem de conseguir olhar para esses dias sem deixar que cada um decida o futuro do projeto. Pode ajustar o plano e continuar comprometido com o objetivo.

Os objetivos e as exigências são diferentes. O que esta comparação permite observar é o lugar que cada um dá às dificuldades.

Mesmo quando treinas apenas para ti, podes transformar cada sessão numa espécie de exame. Devias ter levantado mais. Devias ter conseguido acabar. Devias estar a evoluir mais depressa. Acabas por exigir que cada treino confirme o teu progresso, quando alguns vão precisamente mostrar o que ainda precisas de trabalhar.

E isso pode ser difícil de aceitar. A vontade de ter resultados continua, mas a disponibilidade para repetir, aprender e esperar começa a desaparecer. O programa fica para trás e, a certa altura, deixas de aparecer.

O treino pode ocupar um lugar simples e sério na tua vida. Tens uma hora, apareces, empenhas-te e aprendes. Não precisas de transformar essa hora numa prova do teu valor, nem de organizar a vida como alguém que procura viver do desporto.

Mas precisas de deixar espaço para o que ainda não consegues fazer.

Se o teu objetivo se constrói ao longo de meses, o plano também tem de incluir os dias em que vais embora sem estar satisfeito com o que fizeste.